sexta-feira, 19 de junho de 2015

2.2 - O fim do conflito: os ditames da reta razão

Hobbes confere à razão o papel de apontar aos homens o melhor caminho para a conservação da vida na medida em que a razão é a faculdade a partir da qual as leis de natureza podem ser deduzidas. Ela deve ser um objeto de estudo se pretendemos entender tais leis. No Leviatã, Hobbes diz que razão “nada mais é do que cálculo das consequências de nomes gerais estabelecidos para marcar e significar nossos pensamentos”. Raciocinar, para Hobbes é calcular e o raciocínio é responsável. A razão demanda esforço e sendo assim não é tão facilmente alcançada por todos os homens. 
O bom uso da razão requer um bom uso da linguagem, pois a linguagem mal utilizada conduz a raciocínios falsos ou absurdos, que podem ser altamente maléficos à humanidade, é ela que nos difere dos animais, mas, por outro lado, a linguagem é capaz de nos precipitar na ignorância se não for bem utilizada. 
Hobbes diz que a capacidade de proceder de acordo com regras gerais e infalíveis não é qualidade de todos os homens, mas “pouquíssimos têm e apenas numas poucas coisas”. Assim, tal habilidade é restrita e como todo cálculo, está sujeita ao erro. Podemos dizer que a razão parece estar mais relacionada com a faculdade, com a capacidade que os homens têm de calcular, enquanto a reta razão parece se referir ao melhor uso da razão. A razão é reta quando o raciocínio é verdadeiro. E do ponto de vista do comportamento humano, quando o raciocínio é verdadeiro as conclusões às quais chega são regras que conduzem à preservação de si e à paz, sendo assim, mais uma vez temos que a razão, enquanto faculdade é também própria de todos os homens. Há a necessidade de que, para haver a reta razão, é preciso o esforço ou cultivo. 
Uma correta operação da razão se mostra possível mesmo em estado de natureza, ou seja, o bom uso da razão, em estado de natureza, é improvável, ainda que não seja impossível.
Hobbes diz que a razão contribui pois sugere adequadas normas de paz, em torno das quais os homens podem chegar a acordo. Essas normas são as leis de natureza. 
Uma vez que o que se pretende é a conservação de si por meio do estabelecimento da paz, as regras seguintes pretendem preservar a sociabilidade e evitar a hostilidade entre os homens.
Uma lei de natureza é uma regra descoberta por reflexão racional que conduz os indivíduos em direção à autopreservação. Por meio do poder da razão, os indivíduos no estado de natureza podem descobrir princípios gerais de ação que os ajudarão a evitar a destruição. 
As leis de natureza podem ser resumidas na regra de ouro: “não faças ao outro aquilo que não farias a ti mesmo”. 
No estado de natureza não há garantia de cumprimento recíproco do pacto, se alguém cumpriu sua parte, não se deve estar certo de que o outro o fará. Os homens prezam pelo benefício imediato que possam ter com o rompimento. Faz-se necessário, portanto, um poder comum que atue sobre os contratantes e os  obrigue ao cumprimento, uma instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-los. A obrigação efetiva se dá somente no Estado
Hobbes afirma que as leis de natureza podem ser vistas sob duas perspectivas: primeiro elas são uma série de regras descobertas pela razão humana, e não são moralmente obrigatórias, mas preceitos prudenciais que fornecem um caminho racional para a autopreservação. 
Segundo, elas são também os comandos de Deus revelados através do poder natural da razão e através da Sagrada Escritura
Vemos no Leviatã que “todos os homens concordam que a paz é uma coisa boa, e, portanto que também são bons o caminho ou meios da paz, os quais são a justiça, a gratidão, a modéstia, a equidade, a misericórdia e as restantes leis de natureza; quer dizer, as virtudes morais; e que seus vícios contrários são maus”.

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